A crise de 2008 põe à prova as políticas keynesianas (Paul Singer)

9 de maio de 2009 at 15:17 1 comentário

Por Paul Singer, fevereiro de 2009

Keynes demonstrou que o nível de atividade e emprego, em qualquer economia de mercado, depende da demanda efetiva por bens e serviços de consumo pelas famílias e por bens e serviços de investimento pelas empresas. Quanto mais as famílias consumirem e as empresas investirem, tanto mais crescerá a produção e o emprego. Se por algum motivo, os gastos de consumo e de investimento caírem, a produção e o emprego os acompanharão na queda. A crise resulta do encolhimento da demanda efetiva. (Como fez Keynes, também não consideramos aqui os efeitos do comércio externo e do gasto público, para facilitar o entendimento).

A queda da demanda efetiva em muitos países, a partir de 2008, tem por causa a redução do crédito, resultante da crise de inadimplência causada pelo estouro da bolha imobiliária em 2006. Entre 2001 e 2006, bancos de investimentos passaram a oferecer abundantes financiamentos para a compra de moradias, em condições muito favoráveis, o que fez a demanda por imóveis crescer à frente da quantidade posta à venda. Logo, os preços dos imóveis subiam o tempo todo, caracterizando a bolha.

Em 2006, o número de compradores começou a cair, enquanto a quantidade de prédios e casas em construção ainda crescia. A falta de compradores fez com que os preços dos imóveis começassem a encolher, decretando o fim da bolha. As famílias, que haviam comprado moradias a prazo, cujos valores caíam abaixo da dívida por pagar, suspenderam a amortização da mesma, dando, aos bancos e fundos que possuíam estes créditos em carteira, prejuízos totalizando muitos bilhões de dólares.

As instituições financeiras atingidas não tinham mais como cumprir suas obrigações com as demais, assim também alcançadas pelo vórtice da inadimplência. O resultado se tornou patente em 2008: as finanças de todas as economias nacionais globalizadas, foram tomadas pelo pânico. Mesmo os bancos pouco atingidos suspenderam as operações de crédito, com medo dos tomadores ficarem inadimplentes. O crédito se tornou ultra escasso e a crise atingiu empresas não financeiras. A crise da indústria automobilística p.ex. se deveu à queda das vendas, devida ao encurtamento dos prazos de pagamento dos carros e a formação de estoques invendáveis deixou a indústria sem dinheiro para pagar fornecedores e empregados, que haviam construído os carros encalhados nos pátios.

Processos como estes atingem paulatinamente todas as atividades econômicas, que tendem a parar se nada for feito. A política anticíclica keynesiana consiste essencialmente em ações do setor público em substituição ao setor privado, paralisado pelo pânico. Os bancos públicos ‘salvam’ tanto bancos privados em crise, oferecendo-lhes o crédito que eles se negam mutuamente como empresas não financeiras em crise. Além disso, as instituições governamentais podem ampliar a oferta de serviços públicos – educação, saúde, pesquisa, saneamento, segurança, justiça etc. – pois diferentemente das firmas privadas, não visam lucro e não correm o risco de quebrar.

Os governos são responsáveis pela construção, conservação e restauração da infra-estrutura urbana, de transporte, energia etc.. e as promovem até o limite de seus recursos orçamentários, quase sempre aquém das necessidades. O combate a crises oferece oportunidades para expandir serviços e infra-estrutura vitais para a qualidade de vida dos mais carentes. Além disso, governos democráticos distribuem renda diretamente aos mais pobres, sob a forma de Bolsas Família, cestas básicas, merenda escolar, habitação de interesse social e reforma agrária. Na medida em que estas políticas são financiadas por impostos arrecadados dos mais ricos, a demanda efetiva de consumo sobe, contribuindo diretamente para o aumento da produção, do emprego e do investimento.

Como os ricos entesouram rendas adicionais ao passo que os pobres as gastam para satisfazer suas necessidades mais urgentes, a redistribuição de renda financiada pelos impostos pagos pelos primeiros contribui ao aumento de produção, emprego e investimento e portanto ao combate à crise. Todas estas políticas ativam a economia e ao mesmo tempo a tornam socialmente mais justa. Elas terão sucesso, no entanto, apenas se puderem superar o pânico e restaurar a confiança na sociedade civil de que a economia está reagindo e de que os primeiros a ampliarem suas atividades produtivas serão recompensados. O que na prática não deixa de acontecer.

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Oportunidades na Crise (Juarez de Paula) Brasil: para além da crise (Tânia Bacelar)

1 Comentário Add your own

  • 1. vanessa.  |  3 de dezembro de 2009 às 14:54

    muito bom, entendi perfeitamente.

    Responder

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