Empreendimentos econômicos e solidários: construção de um novo porvir (Claiton Mello) 

23 de setembro de 2009 at 14:24 Deixe um comentário

Por Claiton Mello*, setembro de 2009

Resumo
O objetivo desse artigo é apresentar a perspectiva organizacional e solidária de duas cooperativas centrais de produção compostas por trabalhadores da agricultura familiar, relacionando essa realidade com a literatura que discute os fundamentos epistemológicos do desenvolvimento sustentável. Trataremos aqui de dois conjuntos de empreendimentos econômicos e solidários (EES) vinculados às cadeias produtivas do mel e do caju, no estado do Piauí, que tem como pressuposto gerar trabalho e renda e melhorar as condições sociais de seus cooperados, com respeito ao meio ambiente. O desafio desse artigo é apresentar como a construção coletiva, entre atores locais e organizações parceiras externas àquelas atividades, pode transformar o ambiente social em uma nova dinâmica de interação e desenvolvimento. Os dados e informações sobre os fatos e sobre os EES são de meu conhecimento, fruto do acompanhamento sistemático que realizado como gestor de Comunicação e Mobilização Social da Fundação Banco do Brasil.

Palavras Chave

1. Solidariedade; 2. Comunidade; 3. Participação social; 4. Cooperativismo; 5.
Desenvolvimento sustentável.

Introdução
Os empreendimentos econômicos e solidários (EES) aqui tratados são a Central de Cooperativas Apícolas do Semi-Árido Brasileiro (Casa Apis), e a Central de Cooperativas de Cajucultores do Estado do Piauí (Cocajupi). Utilizaremos o conceito de EES por ser esse o adotado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, que compreende organizações supra familiares, de caráter permanente, como associações e cooperativas e que exercem a autogestão de suas atividades e recursos. Ambas as centrais são cooperativas de segunda geração, complexa, quer dizer, a sua formação e existência se dá pela associação de outras cooperativas de base. O surgimento das centrais aconteceu a partir de 2003, quando houve uma priorização de investimentos e políticas públicas direcionados a diversos segmentos sociais antes secundarizados pelo Estado, então, priorizados pelo programa Fome Zero do Governo Federal, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A questão objetiva desvendada por Celso Furtado (1974), em O mito do crescimento econômico, apontou os limites do sistema capitalista, figurado em sua magnitude no século XX, com a promoção da concentração de renda e dos impactos ambientais sem precedentes, de países centrais desenvolvidos sobre países periféricos subdesenvolvidos. Esse quadro contribui para entender, por analogia e similaridade, como também foram produzidas na economia brasileira duas realidades distintas: uma o sul e o sudeste com relativo desenvolvimento, com indústrias e geração de empregos; a outra o norte e o nordeste bastante excluído do processo produtivo e de direitos sociais, com menos acesso ao trabalho.

A evolução do sistema capitalista, no último quarto de século, caracterizou-se por um processo de homogeneização e integração do centro, um distanciamento crescente entre o centro e a periferia e uma ampliação considerável do fosso que, dentro da periferia, separa uma minoria privilegiada e as grandes massas da população. Esses processos não são independentes uns dos outros: devem ser considerados dentro de um mesmo quadro evolutivo. A integração do centro permitiu intensificar sua taxa de crescimento econômico, o que responde, em grande parte, pela ampliação do fosso que o separa da periferia. Por outro lado, a intensidade do crescimento no centro condiciona a orientação da industrialização na periferia, pois as minorias privilegiadas desta última procuram reproduzir o estilo de vida do centro. (FURTADO, 1974, p. 46).

No entanto, hoje, pode-se afirmar que a solução para o norte ou nordeste do Brasil não é e não será a implantação de uma ou de uma dezena de fábricas de automóveis ou de outras plantas industriais de grande porte, seja pela própria recessão e crise capitalista, seja pelos impactos ambientais trazidos por empresas dessa natureza. A alternativa para comunidades, territórios e até mesmos para países em situações de baixo nível de geração de riquezas está em soluções endógenas, que promovam o desenvolvimento a partir de dentro das próprias comunidades, como afirma Ignacy Sachs (2008), estimulando e desenvolvendo processos de produção e valorização das culturas e saberes locais.

Foi com esse propósito apontado por Sachs que essas novas cooperativas foram viabilizadas com investimentos de recursos financeiros, políticos e de gestão, entre diversas entidades que aportaram ao projeto de promover o desenvolvimento das cadeias produtivas da apicultura e da cajucultura, junto a agricultores familiares do estado do Piauí. Entre essas instituições estão a Fundação Banco do Brasil (FBB), o Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequena Empresa (Sebrae), a Fundação Interuniversitária Unitrabalho e a Organização Intereclesiástica da Holanda (ICCO), além de diversas outras instituições e órgãos de governos que apoiaram a iniciativa. Cada instituição trouxe a sua experiência e capacidade, para interagir com os EES existentes e com as novas cooperativas que estavam surgindo.

Produtores e Produção
A base social desses empreendimentos é bastante significativa: a Casa Apis tem dez cooperativas filiadas que, juntas, representam 1.600 agricultores familiares que produzem e colhem mel, também chamados apicultores. A Cocajupi também conta com dez cooperativas singulares filiadas, com uma base de associados na ordem de 500 famílias de produtores de caju, chamados cajucultores.

Apesar dessas atividades ainda não serem reconhecidas como profissões específicas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, centenas de famílias de agricultores, principalmente no Nordeste brasileiro, tiram o seu sustento basicamente dessas culturas. Os cajucultores e os apicultores, especificamente, constituem-se com defensores ambientais do ecossistema do semi-árido brasileiro, na medida em que os pés de cajueiros devem ser bem tratados pelos agricultores e essas árvores estão bastante harmonizadas com aquela paisagem; bem como as diversas floradas, inclusive a dos cajueiros, são vitais para a atividade apícola. A proteção de toda a vegetação existente é um princípio daqueles trabalhadores agrícolas que, na maioria das vezes, moram em comunidades afastadas das cidades. O contato que esses trabalhadores têm com o mundo, externo a sua família ou a sua pequena comunidade, ainda acontece, basicamente, por meio da sua produção, seja das castanhas de caju seja do mel colhido localmente. Souza Santos nos remete a essa dimensão de comunidade em nossos tempos:

As representações que a modernidade deixou até agora mais inacabadas e abertas são, no domínio da regulação, o princípio da comunidade e, no princípio da emancipação, a racionalidade estético-expressiva. Dos três princípios de regulação (mercado, Estado e comunidade), o princípio da comunidade foi, nos últimos duzentos anos, o mais negligenciado […] Mas, também por isso, é o princípio menos obstruído por determinações e, portanto, o mais bem colocado para instaurar uma dialética positiva como pilar da emancipação. Porque é uma representação aberta e incompleta, a comunidade é ela própria dificilmente representável – ou é-o apenas vagamente – e os seus elementos constitutivos, também eles abertos e inacabados, furtam-se a enumerações exaustivas. Têm, contudo, uma característica comum: todos resistiram à especialização e à diferenciação técnico-científica através das quais a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência moderna colonizou os outros dois princípios modernos de regulação: o mercado e o Estado. Ao contrário dos dois últimos, o princípio da comunidade resistiu a ser totalmente cooptado pelo utopismo automático da ciência e, por isso, pagou duramente com a sua marginalização e esquecimento. (SOUSA SANTOS, 2007, p. 75).

A produção e processamento do mel e do caju, culturas locais e sob o domínio daqueles trabalhadores, pode trazer um potencial de desenvolvimento significativo, na medida em que esses produtos naturais podem gerar inúmeros subprodutos, consequentemente, gerar mais renda e melhores condições de vida. Da apicultura, extrai-se a própolis, a geléia real, o mel que é produto e insumo para diversas outras finalidades, como fármacos, cosméticos e alimentos. Da cajucultura, além da castanha de caju, que hoje tem forte valor no mercado internacional, a carne do fruto pode-se fazer diversas variedades de alimentos para consumo humano, com grande fonte de proteína, como também, para a produção de ração animal. No entanto, aproximadamente, 90% do pedúnculo – a carne do caju – vira resíduo não aproveitado no processo produtivo brasileiro. Sachs (2002) aponta para a importância do aproveitamento sustentável e total dos recursos naturais, a exemplo do potencial existente na cajucultura e na apicultura:

Nosso problema não é retroceder aos modos ancestrais de vida, mas transformar o conhecimento dos povos dos ecossistemas, decodificado e recodificado pelas etnociências, como um ponto de partida para a invenção de uma moderna civilização de biomassa, posicionada em ponto completamente diferente da espiral de conhecimento e do progresso da humanidade. O argumento é que tal civilização conseguirá cancelar a enorme dívida social acumulada com o passar dos anos, ao mesmo tempo que reduzirá a dívida ecológica. Para isso, temos que utilizar ao máximo as ciências de ponta, com ênfase especial em biologia e biotécnicas, para explorar o paradigma do “B ao cubo”: bio-bio-bio. O primeiro b representa a biodiversidade, o segundo a biomassa e o terceiro as biotécnicas. (SACHS, 2002, P. 30-31).

O processo produtivo realizado é baseado no cooperativismo entre os trabalhadores, com o objetivo e atuar em toda a cadeia produtiva, desde a produção agrícola primária, passando pelo beneficiamento do produto, até o processamento, embalagem e comercialização final. Os meios de produção da Casa Apis são formados por vinte casas de mel, onde ocorre o primeiro beneficiamento, sob a coordenação das cooperativas de base. Essas unidades produtivas estão espalhadas em 34 pequenas comunidades rurais nos municípios de Picos, Pio IX, Itainópolis, Simplício Mendes, Piripiri, Esperantina e São Raimundo Nonato, no Piauí, além de Horizonte e Batalha, no Ceará. Posteriormente, essa produção segue para o processamento e embalagem na Unidade Central de Processamento do Mel, que fica na cidade de Picos, gerida pela própria Casa Apis.

O mesmo modelo de produção em toda a cadeia produtiva ocorre na cajucultura. As cooperativas singulares são responsáveis pelo primeiro tratamento das castanhas de caju em dez minifábricas de beneficiamento, localizadas nos municípios piauienses de Altos, Vila Nova do Piauí, Francisco dos Santos, Ipiranga do Piauí, Itainópolis, Jaicós, Campo Grande do Piauí, Monsenhor Hipólito, Pio IX e Santo Antônio de Lisboa. Em seguida, a produção é encaminhada a Picos, para finalização e embalagem na Unidade Central de Processamento de Castanha de Caju, administrada pela Cocajupi. Enfim, como aponta Boaventura de Sousa Santos (2007, p. 75), “para determinar as virtualidades epistemológicas do princípio da comunidade, saliento duas das suas dimensões: participação e solidariedade. Esses elementos só muito parcialmente foram colonizados pela ciência moderna”; são essas comunidades que têm o potencial da emancipação e de construção de uma nova realidade voltada ao desenvolvimento sustentável, distante da lógica perversa em que a modernidade nos trouxe até aqui, a partir da solidariedade, participação social e cooperativismo produtivo.

Esse mesmo desenho organizacional com outros EES na cajucultura, com atuação em toda a cadeia produtiva, também ocorre nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia, contando com a parceria e participação da FBB, Sebrae, Unitrabalho, entre outras instituições. Ainda, no Piauí, estão em fase de implantação de duas unidades de produção e processamento do pedúnculo para transformação em cajuína, bebida não alcoólica com alto grau energético, pouco difundia no país. As unidades serão acopladas junto às minifábricas de beneficiamento de castanha de caju nas cidades de Ipiranga do Piauí e Monsenhor Hipólito.

As estruturas de produção das centrais da Casa Apis e da Cocajupi foram concluídas em setembro de 2007. Desde então, o processo de comercialização e logística, com alguns resultados positivos, são os novos desafios desses empreendimentos. Por exemplo, a Casa Apis, com pouco mais de um ano de existência, concluiu o ano de 2008 como a 22ª instituição em exportação do Piauí. A Cocajupi tem participado de feiras e exposições e já conquistou uma importante carteira de compradores em várias capitais brasileiras.

Fatos dessa natureza transformam não só os aspectos econômicos e sociais, na medida em que a geração de renda e a apropriação direta da riqueza gerada pelo trabalho ficam nas mãos dos próprios agricultores; o outro impacto, talvez invisível, é o da mudança de consciência dos trabalhadores desse segmento social, que começam a se sentir participantes de um processo vivo e complexo de organização social, distante e diferente de uma ou duas décadas passadas em que uma das poucas alternativas era esperar a ajuda de um político local, dentro de uma lógica clientelista. Pode-se dizer que há o desenvolvimento por dentro desse coletivo de um “estado nascente”, como elaborado por Alberoni:

Ao nível individual, o estado nascente é uma experiência extraordinária que interrompe o enredo da vida cotidiana, dando-lhe um novo rumo. É o descobrimento de uma vocação mais profunda, do próprio destino. É um chamamento ou uma revelação. Mas também pode ser o nascimento de um amor, uma conversão religiosa ou política, uma irresistível inspiração artística, uma decisão irrevogável. O estado nascente é uma experiência cognoscitiva. É conhecer, ver, descobrir aquilo que estava oculto, uma revelação daquilo que já existia. […] O estado nascente, portanto, é uma experiência tanto individual quanto coletiva, que gera uma ação social de tipo novo, uma nova solidariedade, uma onda de choque sobre as estruturas estabelecidas e uma vontade de renovação radical, uma exploração de possível, procurando realizar alguma coisa daquilo que havia sido vislumbrado. (ALBERONI, 1991, P. 13 e 37).

Interações e organizações complexas
Existe um arranjo sofisticado de organização e comprometimento entre os dirigentes das cooperativas de base para sustentar a estrutura de ambas as centrais cooperativas, bem como uma co-responsabilização no processo de acompanhamento sistemático desses empreendimentos juntamente com as instituições parceiras, organizadas por meio do Comitê Gestor, que é uma espécie de conselho consultivo dos empreendimentos. Participam do Comitê de cada cadeia produtiva representantes da central e das cooperativas de base; as instituições que promovem investimentos financeiros, políticos e de suporte a gestão, além de outras organizações públicas, privadas e governamentais que interagem com os empreendimentos. Nele são debatidos temas como a elaboração e acompanhamento do planejamento estratégico anual; gargalos da produção e comercialização; estratégias e perspectivas de construção de novas alianças e parcerias para o fortalecimento e o desenvolvimento sustentável dos empreendimentos econômicos e solidários. Essa articulação interinstitucional aliada aos EES pode ser considerada uma ação contra-hegemônica ao modelo econômico liberal, como apontam Duarte e Wehrmann:

Trata-se de uma economia voltada para atender as demandas de uma sociedade mais exigente e mais comprometida com a cooperação, com a solidariedade, em uma relação mais respeitosa com a natureza, com as múltiplas formas de arranjo e, sobretudo, com as particularidades – com o território, com a região. Nesse contexto, o desenvolvimento vislumbrado pode ser descrito como aquele que a utilização dos recursos para as atividades é realizada por atores que levam em conta as especificidades regionais. Pressupõe-se que dessa maneira as atividades resultarão em benefício para a comunidade e para o ambiente da região. […] Combinada a fatores internos e regionais, a multiplicidade de ações e iniciativas que se faz presente no Continente Sul-americano, e em especial no Brasil, traduz-se por uma grande diversidade de situações e problemáticas, assim como por uma gama enorme de experiências inovadoras, em termos da organização e participação dos atores sociais em processos de desenvolvimento contra-hegemônicos e de economia solidária. No caso brasileiro, a força e a importância do cooperativismo e do associativismo podem ser igualmente salientadas no que se refere à consolidação da agricultura familiar e ao desenvolvimento regional/territorial. (DUARTE e WEHRMANN, 2008, p. 21-22).

Hoje, os EES têm um relacionamento muito forte com alguns outros segmentos sociais, como por exemplo, os profissionais de comunicação e os gestores e professores das Instituições de Ensino Superior (IES). Isso se deve ao fato de que esses empreendimentos veem ganhando notoriedade, na medida em que a capacidade de produção e produtividade dos cooperados da Casa Apis, por exemplo, tem aumentando a cada ano. A previsão de processamento de mel na Unidade Central, para 2009, é de mais de 1.000 toneladas. A capacidade de processamento total é de 2.000 toneladas. No primeiro ano de funcionamento, foram processadas mais de 500 toneladas, o que garantiu a sua classificação como uma das maiores exportadoras de mel do Piauí, o que dá destaque àquela região. Picos é uma cidade pólo, com 80 mil habitantes, mas que gravitam outras 39 cidades menores, formando uma população de quase 400 mil pessoas.

O relacionamento dos EES com os agentes da mídia local, que buscam nas cooperativas bons casos para os seus veículos de comunicação, como também a relação com os gestores, coordenadores e professores das IES, é resultado de uma política de comunicação e mobilização social que vem sendo realizada nos principais municípios onde há casas de mel e minifábricas de beneficiamento de castanha de caju e, principalmente, em Picos, sede das centrais de processamento do mel e do caju. Essa ação consiste em identificar os reeditores sociais, conforme elaborado por Jose Bernardo Toro, educador colombiano:

Uma mobilização social deve dirigir-se aos “reeditores”, ou seja, a pessoas que têm públicos próprios: um conjunto de pessoas diante dos quais o “reeditor” possui credibilidade e legitimidade para propor e modificar ações e mensagens. Um político é um reeditor social, pois seus seguidores aceitam livremente suas ideias e propostas de ação. O mesmo pode se dizer de um sacerdote ou de um pastor, de um líder sindical ou comunitário, de um pai de família, de um artista e de um professor. (TORO, 2005, p. 92).

A realidade de daquela região, também conhecida como Vale do Guaribas, tem demonstrado mudanças de qualidade na percepção da população, principalmente, junto aos produtores familiares envolvidos nos EES e junto a esses reeditores: os professores das IES e os comunicadores locais. O debate sobre o desenvolvimento sustentável daquele território, com a sua cultura e riqueza próprias, combinado com a compreensão vital do ambiente, constitui-se como temas de diálogo e desejos entre esses atores. Algo muito próximo do que nos escreve Leff:

O saber ambiental constrói sua utopia a partir do potencial do real e da realização do desejo que ativa princípios materiais e significações sociais para a construção de uma nova realidade – de uma racionalidade social alternativa – na qual se verificará sua verdade como potência, mobilizando processos com vistas à realização de certos objetivos, mediante suas incertezas e possibilidades. Assim, a racionalidade ambiental converte-se num processo de racionalização teórica, técnica e política que dá coerência conceitual, eficácia instrumental e sentido estratégico ao processo social de construção de um futuro sustentável. A racionalidade ambiental vai se verificando no processo de construção de seu referente, mediante processos de racionalização – de transformações axiológicas, gnosiológicas, instrumentais e produtivas – que orientam a mudança social para a sustentabilidade. (LEFF, 2004, p. 56-57).

Existem quatro IES estabelecidas em Picos: a Universidade Federal do Piauí (UFPI); a Universidade Estadual do Piauí (UESPI); o Instituto Federal de Educação Tecnológica (IFET) e; a Faculdade R. Sá, esta a única IES privada da região. Em 2008, os gestores e coordenadores de cursos das quatro IES participaram de uma oficina que teve como objetivo definir um calendário de eventos relacionados aos temas de interesse dos EES, enfocando a discussão sobre o desenvolvimento sustentável da região e o papel de cada instituição nesse contexto, resultando em desdobramentos positivos.

Hoje, todas as IES estão atuando, de alguma forma, com atividades acadêmicas e de extensão junto aos EES. A UFPI atua no âmbito de suas faculdades de nutrição e química, na análise dos produtos in natura das unidades de produção; a UESPI, por meio do seu curso de comunicação social, tem participado as ações de divulgação e comunicação das ações dos EES; o IFET tem contribuído na perspectiva de estudar as necessidades tecnológicas dos EES e; a Faculdade R. Sá, por meio de seus cursos de comunicação social e administração, têm solucionado demandas e criado alternativas para o fortalecimento institucional dos empreendimentos, como a construção das páginas eletrônicas na internet da Casa Apis e da Cocajupi.

Considerações finais
Em quanto escrevia este artigo, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) anunciou que de cada seis pessoas no mundo, uma está passando fome, conforme dados publicados pela organização em 19 de junho e testemunho do diretor geral, Jacques Diouf:

Una mezcla explosiva de desaceleración económica mundial y precios de los alimentos que se empeñan en permanecer altos en muchos países, ha empujado a unos 100 millones de personas más al hambre y la pobreza. Esta crisis silenciosa del hambre – que afecta a uno de cada seis seres humanos – supone un serio riesgo para la paz y la seguridad mundiales. Necesitamos crear con urgencia un amplio consenso para la erradicación rápida y completa del hambre en el mundo y para dar los pasos necesarios. La situación actual de inseguridad alimentaria mundial no nos puede dejar indiferentes. Los países pobres necesitan las herramientas de desarrollo, económicas y políticas necesarias para impulsar su producción agrícola y su productividad. Es necesario incrementar la inversión en agricultura, ya que en la mayoría de los países pobres un sector agrícola saludable es clave para vencer al hambre y la pobreza y supone un requisito previo para el crecimiento económico. (FAO, 19.06.2009).

Infelizmente, as reflexões de Celso Furtado e as contribuições históricas de Ignacy Sachs, Ladislau Dowbor, Boaventura de Sousa Santos, entre tantos outros intelectuais, que têm apontado ideias e propostas concretas de construção de um novo paradigma de sociedade, não ecoam e se traduzem em política hegemônica planetária. Como nos disse Boaventura, em evento na UnB, no dia 4 de junho passado: “é preciso pensar novo, ver novas formas; não estabelecer consensos, mas sim, resignação. Precisamos de um pensamento alternativo para construir alternativas: proponho uma epistemologia do sul. É preciso reinventar a emancipação social e ter novas propostas, pois as epistemologias do século XX falharam”.

Sim, existe uma crise de paradigma, como aponta Kuhn, porém, não só na ciência. Essa crise está em todos os níveis: no econômico, no social, no político e no ambiental. O caminho à solução dessa crise emaranhada passa, por exemplo, em resolver a equação mundial colocada agora pela FAO.

No Brasil, é preciso aprofundar experiências, tecnologias e soluções emancipadoras como as que estão em curso no Piauí e aqui relatadas; promove-las em outros territórios que tenham as mesmas demandas, adequando-as a cada realidade, pode ser um caminho viável. As políticas públicas devem estar em sintonia com os objetivos do desenvolvimento sustentável, desde a ação dirigida diretamente às comunidades dos agricultores familiares, garantindo melhoria nas condições de vida, até a promoção de educação e condições para que a juventude local tenha gosto e interesse pelo seu território, o desenvolva de forma sustentável e fique nele; como também àquelas políticas que se relacionam com as pessoas das cidades e metrópoles, para promover a redução e o consumo consciente dos recursos naturais.

A valorização dos conhecimentos e saberes locais, muitas vezes desconsiderados e negados pela ciência, combinada com a interação entre diferentes atores sociais, contribui para o desenvolvimento de comunidades, territórios e paises. Resgatar, recuperar e reaplicar esses conhecimentos e interações em outras realidades faz parte de um novo paradigma e de um novo fazer, diferente e necessário, capaz de transformar o ambiente.

O ambiente é algo que está sem suporte, sem apoio e sem sustentação; ele é meio e é o Outro, distante de nós, como aponta Leff:

O ambiente configura o campo de externalidade das ciências que não é reintegrável – internalizável – por extensão e a racionalidade científica a estes espaços negados e saberes esquecidos. O ambiente é o Outro do pensamento metafísico, do logos científico e da racionalidade econômica. Nesta perspectiva, o propósito de internalizar a “dimensão ambiental” nos paradigmas do conhecimento se propõe como um confronto de racionalidades e tradições, como um diálogo aberto à outridade, à diferença e à alteridade. (LEFF, 2007, p. 161).

Construir o debate epistemológico do desenvolvimento sustentável e da complexidade ambiental, de modo que essa discussão seja norteadora dos caminhos e decisões da humanidade, daqui para frente, é indispensável para o nosso presente e inevitável para o nosso futuro. Descobrir e testar novas possibilidades de relação com o ambiente e enamorar-se como o porvir de uma nova sociedade justa, solidária e sustentável é o que mobiliza nossos corações e mentes. Finalizo, compartilhando com Leff (2007, p. 221): “A complexidade ambiental abre o caminho infinito no qual se inscreve o ser num devir complexificante. Um ser sendo, pensando e atuando no mundo”.

*Claiton Mello é Gerente de Comunicação e Mobilização Social da Fundação Banco do Brasil

 

Bibliografia

ALBERONI, F. Gênese: Como se criam os mitos, os valores e as instituições da civilização ocidental. Rio de Janeiro. Rocco, 1991.

DOWBOR, Ladislau. Democracia econômica. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil: 2007.

DUARTE, Laura e WEHRMANN, Magda. Socioeconomia do desenvolvimento e ambiente. Texto publicado no Curso MBA/DRS/BB/UnB, 2008.

FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. 4a. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2007.

LEFF, Henrique. Aventuras da epistemologia ambiental: da articulação das ciências ao diálogo de saberes. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

_____. Epistemologia ambiental. 4ª ed. São Paulo: Cortez, 2007.

SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Garamond, 2002.

_____. Desenvolvimento includente, sustentável e sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2008.

SOUZA SANTOS, Boaventura de. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2007.

TORO, Jose Bernardo. A construção do público: cidadania, democracia e participação. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005.

Página na internet consultada:

https://www.fao.org.br/vernoticias.asp?id_noticia=814 – Acesso em 19.06.2009.

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