Crise: oportunidade para pensar um sistema mais justo (IPEA) 

26 de novembro de 2009 at 15:32 Deixe um comentário

Publicado na Revista Desafios do Desenvolvimento*, 30 de outubro de 2009

Uma crise do tamanho da iniciada em setembro do ano passado pode trazer muitas mudanças e oportunidades, inclusive o estabelecimento de novos modelos de desenvolvimento. Pensar esses modelos torna-se tarefa premente para os governos e a sociedade civil. Essa urgência permeou o seminário Crise como oportunidade, realizado em agosto na sede do Ipea em Brasília. Participaram como palestrantes Ladislau Dowbor, professor de economia e administração da PUC-SP, Paul Singer, titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária, ligada ao Ministério do Trabalho, e Silvio Caccia Bava, coordenador-executivo do Instituto Pólis e editor do Le Monde Diplomatique Brasil.

Singer afirmou que a crise proporcionou uma “grande oportunidade”. “Todos os governos do mundo simplesmente jogaram fora os ensinamentos da ortodoxia neoliberal e tiraram Keynes da naftalina. Isso significa aumentar o gasto público e o crédito o máximo possível”, disse. Segundo o secretário, o Brasil passou de maneira mais fácil pela turbulência por ter quase metade de seu sistema bancário nas mãos do governo federal.

Singer afirmou que a crise proporcionou uma “grande oportunidade”. “Todos os governos do mundo simplesmente jogaram fora os ensinamentos da ortodoxia neoliberal e tiraram Keynes da naftalina. Isso significa aumentar o gasto público e o crédito o máximo possível”, disse. Segundo o secretário, o Brasil passou de maneira mais fácil pela turbulência por ter quase metade de seu sistema bancário nas mãos do governo federal.

Singer considera que a crise foi superada apenas do ponto de vista financeiro, não na perspectiva social. “A crise definitivamente sacudiu o que era a ortodoxia mundial do neoliberalismo e o enfraquecimento dos estados nacionais, a globalização imposta. A oportunidade que ela nos oferece é de uma outra agenda de prioridades”, completou. Segundo ele, a agenda anterior, dos “homens de negócios”, tinha como prioridades o controle inflacionário e o equilíbrio fiscal. Agora, ganham relevância a agenda ecológica e a redução das diferenças econômicas e sociais.

Para Ladislau Dowbor, o problema atual não é tanto a produção, mas a melhoria da governança do sistema para que todos tenham um mínimo de qualidade de vida. Dowbor apresentou um gráfico de megatendências sobre população, PIB, espécies em extinção, uso de água, entre outros itens, todos convergindo para uma escalada sem precedentes desde o começo do século passado. “Estamos destruindo o planeta por um sistema que beneficia um terço da população (…) Estruturalmente, estamos amarrados em um processo de desigualdade e destruição ambiental”, afirmou, lembrando que 82,7% da produção mundial é consumida por apenas 20% da humanidade.

Segundo ele, a população mundial se comporta como gafanhotos, mas os recursos naturais são finitos. Da mesma forma, não dá para expandir indefinidamente a produção e o consumo. Ele ressaltou ainda que o crescimento do PIB não resulta em melhor satisfação de vida da população: nos Estados Unidos, caíram os indicadores de satisfação enquanto o PIB crescia. Dowbor argumentou ainda que a produção mundial atual é suficiente para a população do planeta. “Nada será legitimamente seu enquanto houver alguém em necessidade”, ensinou.

Depois que Singer citou uma volta ao keynesianismo, Caccia Bava levantou dúvidas sobre a possibilidade de a crise erguer uma “social-democracia global”, um retorno completo às premissas de Keynes. “Começo a achar que não, pois não vejo atores sociais pressionando por essas posições, por uma agenda mais aberta de alternativas políticas”, afirmou. “Então, provavelmente, vamos continuar tendo uma sequência de crises, com mais concentração de poder no sistema financeiro.” O seminário foi mediado pelo assessor da Presidência do Ipea Milko Matijascic.

*Desafios do Desenvolvimento é a revista mensal de informações e debates do IPEA

Entry filed under: IPEA. Tags: , , , , , .

Crise internacional: balanço e possíveis desdobramentos (IPEA)  Economia da mudança do clima no Brasil: custos e oportunidades

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Comissão convocadora

Amir Khair, Antonio Martins, Caio Magri, Caio Silveira, Carlos Lopes, Carlos Tibúrcio, Darlene Testa, Eduardo Suplicy, Ignacy Sachs, Juarez de Paula, Ladislau Dowbor, Luiz Gonzaga Beluzzo, Moacir Gadotti, Márcio Pochmann, Paul Singer, Roberto Smith.

Feeds


 
Logo BNB
 
Logo IPEA
 
Logo IPF
 

 

 

As postagens deste blog estão abertas para seus comentários.
Para comentar os artigos, use o link "add comment" no rodapé de cada texto.

 
 
 

Se desejar mais informações sobre Crise e Oportunidade entre em contato conosco através do e-mail criseoportunidade@utopia.org.br

 
 

 
 
O objetivo geral de Crise e Oportunidade é de identificar na crise global as oportunidades de se colocar em discussão temas mais amplos, buscando a organização da intermediação financeira e dos fluxos de financiamento para que respondam de maneira equilibrada às necessidades econômicas, mas que sobretudo permitam enfrentar os grandes desafios da desigualdade e da sustentabilidade ambiental, nos planos nacional, regional e global.

 
 
 
 
Ajude a divulgar esta iniciativa colocando este botão em seu site ou blog (<b>https://criseoportunidade.wordpress.com</b>)

Ajude a divulgar este espaço de debate colocando este botão em seu site ou no seu blog.

 
 
 
 
 
 
Licença Creative CommonsEste blog está licenciado sob uma Licença Creative Commons 2.5 BR

%d blogueiros gostam disto: