Olhando o futuro (Amir Khair) 

12 de abril de 2010 at 12:27 Deixe um comentário

Por Amir Khair, 11 de abril de 2010
Publicado no jornal O Estado de São Paulo

Em artigo de 28 de fevereiro indagava se não estaria em marcha um novo paradigma para o desenvolvimento do sistema capitalista. Volto hoje ao tema procurando desenvolvê-lo um pouco mais. Em síntese o artigo se baseou no fato de haver um descolamento crescente entre o desenvolvimento dos países emergentes e dos desenvolvidos. De fato, segundo dados do Fundo Monetário Internacional na média anual dos últimos dez anos, entre 2000 e 2009, os países desenvolvidos cresceram 1,6% e os emergentes 5,8%, ou seja, quatro vezes mais. Os destaques foram para China e Índia com crescimentos de 9,9% e 7,1% respectivamente. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos lideraram o crescimento com 1,8%, seguido pelo Reino Unido com 1,7% e França com 1,5%. Alemanha e Japão, apenas 0,8%. Os países membros da Zona do Euro cresceram 1,3%. A América Latina cresceu 2,9%, o Brasil, 3,3% e o pior desempenho da região foi do México, com 1,8%, pois sua economia ficou colada na economia americana.

Este processo de descolamento tenderá a se acentuar com a recente crise financeira, que expôs a fragilidade financeira, monetária e fiscal dos países desenvolvidos, cujas conseqüências ainda se farão sentir por alguns anos.

Como avaliado no artigo, este processo vem ocorrendo há vários anos em decorrência da expansão natural do capital na direção da minimização de custos de mão de obra e de localização da expansão geográfica do consumo mundial, que se dá em favor dos países emergentes. A consequência deste processo tem sido a transferência de oferta de empregos dos países desenvolvidos para os emergentes, com uma incorporação sem precedentes de novos consumidores, o que reforça os movimentos do capital para esses últimos.

A maior demanda por mão de obra nos países emergentes tenderá a aumentar empregos e salários nesses países reduzindo o diferencial de salários com os países desenvolvidos. Esse processo poderá ter continuidade por vários anos, cujo resultado seria a redução das diferenças salariais inter e intra países, com ampliação da base de consumo em escala global. Aqui se repõe a indagação: será que o capitalismo experimentará uma nova fase na qual sua viabilização se dê apoiada numa melhor distribuição de renda e riqueza?

Se a resposta for pela experiência histórica, será negativa, pois isso não ocorreu no passado, a partir da revolução industrial. A expansão do capitalismo se deu apoiada em forte concentração de renda e riqueza, ao lado de uma massa de consumidores muito aquém do potencial do universo de consumidores existente na Ásia, África e América Latina.
Analisando a evolução recente do capitalismo, no entanto, a probabilidade de uma resposta afirmativa parece ser elevada, pois este novo surto de desenvolvimento está se apoiando numa massa crescente de consumidores, nunca antes ocorrida. Os movimentos de capital são atraídos cada vez com mais intensidade na direção destas populações antes marginalizadas da sociedade de consumo.

Quem lidera o crescimento mundial hoje é a China, Índia e Brasil, países que apresentam acentuado crescimento de consumidores, sendo que as políticas econômicas destes países estão se consolidando na direção da expansão de seus mercados internos. As análises apontam que continuarão desenvolvendo papel estratégico nessa direção, por um bom período. Entre as razões, além do maior aproveitamento da expansão do consumo, que é a base que atrai a produção e o investimento, está a menor exposição aos humores do mercado externo sobre os quais não têm poder de comando.

A procura por mão de obra nestes países é crescente e deverão continuar expressivos aumentos de valor na massa salarial. Caso os governos destes países mantenham políticas públicas voltadas para redistribuição de renda, ampliação de recursos para as áreas sociais, reduções de custos de necessidades básicas – alimentação, transporte público e moradia – e investimentos em infraestrutura, estarão dadas condições para aceleração deste processo. Mas não é só. Se o alto nível de reservas internacionais foi estratégico para o enfrentamento da crise, sua manutenção pode se constituir no retardamento deste processo, pelas perdas que provavelmente sofrerão em consequência da tendência de perda de valor da moeda americana, como saída para o equilíbrio das contas externas dos Estados Unidos e do excesso de liquidez gerado para salvar o sistema financeiro insolvente.

Quanto à tendência do câmbio, tudo indica que seguirá naturalmente a movimentação internacional do capital, ou seja, fluirá dos países desenvolvidos para os emergentes, apreciando suas moedas. Caso não sejam impostas barreiras fiscais e/ou de restrições de prazos de permanência, como já fazem alguns países emergentes, a competitividade destes países poderá ficar comprometida. Há, portanto, uma ótima oportunidade para ganhos fiscais na tributação de capitais especulativos externos.

Por outro lado, pode-se esperar uma fase prolongada de dificuldades econômicas, sociais e políticas em parte dos países desenvolvidos, especialmente naqueles onde ocorreram consumos públicos e privados de forma artificial ancorados nos financiamentos concedidos pelos demais países. Em conseqüência, os empregos e salários deverão sofrer ajustes para adaptar seus consumidores às reais possibilidades de consumo. Em síntese, a nova direção aponta para uma readequação destes países à nova realidade internacional.

Pode ser que este processo não se dê de forma indolor, sem traumas. As restrições em hábitos de consumo poderão gerar conflitos sociais e políticos, o que não deverá deter o processo em curso.

Confirmando-se essa hipótese, os países com maior crescimento econômico poderão melhorar o nível de suas contas públicas, beneficiados por ampliações de receitas devido ao aumento do consumo, da massa salarial e do lucro das empresas. Desta forma poderão obter novas fontes de recursos próprios para ampliar suas políticas sociais, de distribuição de renda, inclusão e de investimentos em infraestrutura. Por outro lado os países desenvolvidos que estão com dívidas e déficits fiscais elevados, poderão ter restrições de despesas e dificuldades na arrecadação. Possivelmente os elevados déficits não poderão contar mais com financiamentos a baixas taxas de juros praticadas atualmente, pois os credores poderão ser mais exigentes, dificultando o equacionamento dos seus endividamentos e déficits fiscais.

Em síntese, a nova conformação do sistema capitalista poderá se orientar para um enfraquecimento relativo dos países desenvolvidos face aos emergentes, que serão apoiados em uma sociedade de consumo de escala maior, onde o poder de compra será conduzido pela maioria da população com renda mais elevada do que os padrões atuais. Caso haja coerência entre as políticas econômicas e sociais, os índices de desenvolvimento humano (IDH) poderão se aproximar entre os países, diminuindo as diferenças existentes e resultando em melhores índices de condições de vida da extensa população atualmente excluída. Quem sabe, essa seja talvez uma das possibilidades de haver transições rumo a uma sociedade mais justa, democrática e equilibrada na distribuição dos frutos da geração de renda e riqueza. Só o futuro dirá.

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