A crise em marcha (Amir Khair)

10 de junho de 2010 at 18:23 Deixe um comentário

Por Amir Khair, 6 de junho de 2010
Publicado no jornal O Estado de São Paulo

A cada dia parece se confirmar que a crise grega é apenas a ponta do iceberg da verdadeira crise, que poderá atingir progressivamente toda a Europa num duplo mergulho, e daí repercutir econômica e financeiramente para o resto do mundo.

Para evitar o calote na dívida da Grécia a providência foi a garantia ao pagamento dos títulos dessa dívida pelo Banco Central Europeu (BCE), junto com o socorro financeiro de países da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em troca o governo grego se obrigou a compromissos de aperto fiscal e consequente redução da atividade econômica. A “saída” dada pelo BCE, UE e FMI funciona mais como um paliativo, tentando empurrar o problema para frente, agravando-o.

Esse socorro financeiro traz dois problemas fiscais, que me parecem sem solução, pois crescem as despesas com o serviço da dívida pelo forte aumento do endividamento e cai a arrecadação pela redução da atividade econômica e pelo aumento da inadimplência dos contribuintes, ou seja, forma-se um “sanduíche” fiscal.

A suposição do socorro financeiro é que a redução das despesas públicas seja suficiente para superar esses dois problemas. Parece que os sacrifícios necessários para comprimir as despesas podem fracassar, devido à reação da população em aceitar as perdas que terá que sofrer. As manifestações populares podem gerar desdobramentos políticos difíceis de equacionar.

Em síntese, para a equação fechar, há forte risco da redução de despesas não ser suficiente para compensar as despesas com a elevação do serviço da dívida mais a queda da arrecadação. Assim, será necessário reduzir o valor a ser pago no serviço da dívida, ou seja, seu deságio, com perda para os credores.

Mas, o simples deságio não bastaria para solucionar o problema, pois os desequilíbrios macroeconômicos já existentes tornam necessários outros esforços para viabilizar o equilíbrio de suas contas internas e externas. E isso não será fácil.

Esse deságio, por sua vez, poderá trazer novos desdobramentos na rede financeira europeia já fragilizada pela crise iniciada nos Estados Unidos com as hipotecas de alto risco (subprime). É possível que no desenrolar desse processo, os credores escolham outra bola da vez, que ao que tudo indica pode ser Portugal, Espanha, Itália ou Irlanda. Nesse caso, os valores envolvidos serão bem maiores. É também provável, que as reações populares nesses países imponham outros deságios, com desdobramentos financeiros mais agudos. Nem França e Alemanha, países mais fortes economicamente, estariam a salvo deste processo. E mais, os Estados Unidos (EUA), que esboça tímida reação na economia, com dívida atingindo 90% do PIB neste ano, também sofrerá as conseqüências da derrocada europeia.

Temerosos os governos prometem fazer ajustes fiscais de alto risco político. O da Grécia acertou com o FMI que sua economia deverá encolher 4% neste ano, 2,6% no próximo e o desemprego, de 9,4% em 2009, subirá para 14,8% em 2012. Será o custo da redução do déficit fiscal de 13,6% do PIB em 2009 para 6,5% em 2012. Mesmo assim, sua dívida se estabilizaria em 150% do PIB! A Espanha prometeu cortar 5% dos salários do setor público, congelar os benefícios previdenciários e cortar seis bilhões de euros dos investimentos. O objetivo é reduzir o déficit público de 11,2% do PIB em 2009 para 9,3% em 2010 e 6,5% em 2011. Portugal com déficit de 9,4% do PIB em 2009, também se comprometeu a arrumar suas contas. Fora da zona do euro, o Reino Unido tem uma das piores situações, com déficit fiscal de 11,4% projetado para este ano e na UE, sua dívida é a que cresceu mais rapidamente junto com a da Espanha nos últimos três anos.

A desaceleração das economias dos países da UE com um crescimento de empréstimos de má qualidade poderá repercutir sobre o estado do sistema bancário europeu, com repercussões para países fora da região pela via bancária.

Dia 14 de maio, os bancos expostos à economia espanhola sofreram duras perdas. As ações do Santander, por exemplo, caíram 9,8%, levando a uma queda na bolsa de Madri de quase 7%. Os bancos franceses também sofreram perdas acentuadas. Papéis do Société Générale caíram 8,6%. O risco de novos solavancos é grande.

As análises têm poupado os EUA sob argumentos de que tem política mais flexível, que o sistema financeiro já está se reerguendo e que a retomada do crescimento já vem ocorrendo desde meados do ano passado. Vale observar que a relação de dívida sobre PIB na zona do euro é menor que a dos EUA, e está crescendo mais lentamente também.

Os canais de contaminação da crise européia sobre os EUA poderão se dar pelos reflexos dos deságios no sistema bancário europeu, no seu sistema financeiro e pelo canal comercial na redução das suas exportações para a Europa. Sua situação fiscal precária poderá não ter o fôlego necessário para maiores socorros ao sistema financeiro.

Embora aparentemente não envolvidos com a crise do sistema financeiro europeu, os BRIC serão afetados pela redução de suas exportações para a Europa, pela diminuição de investimentos diretos de estrangeiros e da maior transferência de lucros e dividendos das filiais neles sediadas para suas matrizes na Europa.

A única saída que vejo, com todos os males que possa envolver, é uma forte redução nos créditos dos credores, acompanhada de restrições fiscais politicamente viáveis e uma desvalorização ainda maior do euro. O deságio é condição necessária para permitir uma solução política ao inevitável aperto fiscal, e a desvalorização do euro poderá facilitar o crescimento das exportações permitindo realocar parte da produção destinada ao mercado interno para os mercados emergentes, uma vez que o mercado dos países desenvolvidos está saturado.

Se os credores não cederem no deságio, correm o risco de não recuperar seus créditos, desencadeando uma reação em cadeia em proporções perigosas sobre o sistema financeiro dos países desenvolvidos com a repetição do trancamento internacional do crédito, atingindo a todos. Vale destacar que a Europa representa um quarto da atividade econômica do planeta.

Nesta fase se dá uma queda de braço entre credores e devedores com a intermediação dos bancos centrais tentando pagar e/ou alongar os débitos, ou seja, tentando postergar o desenlace de piora de condições para eventual negociação mais à frente. Na outra ponta, a população dos países da UE não quer pagar sozinha a conta.

Afinal ao emprestar, o credor embute um adicional de juros para cobrir os riscos de perda do valor financiado. Está na hora do sacrifício do setor financeiro ocorrer ao lado do sacrifício dos consumidores que estavam consumindo além de sua possibilidade de pagar pelo consumo que desfrutavam.

Enquanto isso algumas análises têm minimizado os efeitos desta crise sobre a economia brasileira. A preocupação é com o aquecimento da economia levando a uma elevação da inflação e a deterioração das contas públicas. Não há aquecimento se comparado a 2008 e não ao ponto fora da curva que foi 2009, e a inflação irá continuar em queda se a Vale não atrapalhar mais ainda. A crise, no entanto, pode nos atingir, talvez em menor grau do que a anterior, mas não deve ser subestimada.

Nesse sentido vale insistir em acionar novamente, e sem demora, os mecanismos de estímulo ao desenvolvimento econômico e social. É bom o Banco Central repensar sua política de aperto monetário e não cometer o mesmo erro de ter atrasado quatro meses para reduzir a Selic como fez no início de 2009. A crise está em marcha.

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Olhando o futuro (Amir Khair)  O risco sistêmico (Mário Murteira)

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