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Ricos, decadentes e malvados (Antonio Martins)

Crises e Oportunidades, agosto de 2010

A crise financeira de 2008 saiu do horizonte brasileiro de assuntos críticos. A visão mais ampla, é que a perigosa dinâmica de dominó que facilmente afeta os especuladores financeiros – incluídos aqui tanto os grandes bancos do primeiro mundo como as empresas produtivas que resolveram se arriscar no ganho fácil – foi estancada.Teceram-se louvores aos governos que tomaram atitudes corajosas, assumindo os imensos buracos financeiros dos grupos privados, estancando a quebradeira. Mas a realidade simples é que o déficit privado foi transformado em déficit público. O déficit público tem de ser coberto de altguma maneira.Poderia-se buscar a redução dos privilégios (lucros acumulados e bonus faraônicos que continuam a ser pagos), mas isto geraria sacrifícios aparentemente inadmissíveis no topo da pirâmide.

Assim, esta segunda fase da crise, que não é mais de transferência de recursos públicos para os especuladores, mas do déficit público para a população, se desenvolve de maneira muito mais lenta, pois um Estado não “fecha”, mas muito ampla. No essencial, trata-se de fazer pagar aos políticamente mais frágeis – como sempre os “de baixo” – através da redução dos benefícios sociais. O déficit de dezenas de bilhões de um grupo financeiro será coberto por pequenos déficits distribuídos em milhões de famílias. Este processo foi batizado de política de austeridade, de política responsável. Fala-se em medidas duras que um governo assume pois saberá sacrificar a sua popularidade frente às necessidades da nação. Discursos neste sentido ocupam toda a Europa, e em breve se estenderão aos Estados Unidos. Na realidade, como tão bem denunciam Paul Krugman, Hazel Henderson e tantos outros, trata-se de uma escandalosa transferência dos impactos da crise para quem não a provocou. Os efeitos, desde os 10% de desemprego nos EUA até os 30% de desemprego jovem na UE, são devastadores. E ao reduzirem a demanda na base da sociedade, adiam as dificuldades.

Nos últimos textos que temos colocado neste blog Crises e Oportunidades, envolvendo em particular o texto “Brasil: um Outro Patamar”, temos focado esta fase II da crise. A seguir, disponibilizamos o artigo “Ricos, decadentes e malvados”, de Antonio Martins, uma importante contribuição para a compreensão dessas novas dinâmicas.
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Por Antonio Martins, agosto de 2010

Diante da crise, governos dos países ricos investem contra os direitos sociais — especialmente na Europa. Baseada em dogmas e nos interesses das elites, tendência pode deprimir a economia internacional. Mas o mundo já não segue o velho Norte.

Em silêncio, porém rapidamente, alguns dos símbolos de civilização e prosperidade que tornavam o “primeiro mundo” orgulhoso e cobiçado estão se desfazendo.

Continue Reading 16 de agosto de 2010 at 16:05 Deixe um comentário

Da grande implosão às alternativas – Quatro hípoteses provocadoras (Antonio Martins) 

Por Antonio Martins, janeiro de 2010

O abrandamento da crise está deixando perplexa parte da sociedade civil planetária. Este sentimento indica que é preciso repensar nossos conceitos sobre a superação do capitalismo

Um fantasma assombra a esquerda e os movimentos sociais, especialmente na Europa: o pavor de fracassar, diante de uma oportunidade história. No último Fórum Social Mundial, em janeiro de 2009 (em Belém, Amazônia brasileira), parte da sociedade civil sonhou alto. A crise global do capitalismo, então em sua fase mais dramática, foi vista por muitos como um sinal de que o sistema poderia desabar sobre si mesmo. Os mercados financeiros haviam dominado tão completamente o mundo da politica que seria impossível restabelecer controle sobre eles – exceto com mudanças políticas muito profundas. Mesmo instituições recém-criadas, como o G20, tenderiam a se mostrar impotentes – ou, pior, tentariam jogar o peso da crise sobre as costas das sociedades. A única hipótese humanizadora seria uma mobilação inédita das sociedades, com milhões de pessoas nas ruas contra a tirania dos mercados. Como tais previsões não se confirmaram – e como crescem, na Europa, as tendências políticas e sociais ao conservadorismo e à ultra-direita – os que apostaram nelas parecem desanimados e confusos.

Este artigo lança, como provocação, quatro hipóteses contra tal pessimismo. Elas argumentam, em seu conjunto, que não há base real para este sentimento: ele é provocado por uma atitude conservadora. Embora tenha havido enormes transformações na sociedade e na política, nas últimas décadas, parte dos que lutam por um mundo novo continua se orientando por projetos e posturas que faziam sentido nos séculos 19 e 20 – mas hoje conduzem à impotência. Em cenários assim, o pessimismo equivale a uma cilada perfeita e circular. Ao produzir uma visão ilusória da realidade, ele torna inefetivas nossas ações. Esta ausência leva a desperdiçar as oportunidades existentes – e gera, naturalmente, mais desencanto e inação. Não será, portanto, possível reverter o ciclo enquanto persistirem as concepções deformadoras.

Continue Reading 29 de janeiro de 2010 at 11:51 Deixe um comentário

É preciso estimular as lógicas não-capitalistas desde já – Entrevista a Ignacy Sachs (Antonio Martins) 

Por Antonio Martins
Matéria publicada na Revista Fórum – Edição 75, Junho de 2009

Ignacy Sachs, o economista que associou desenvolvimento a sustentabilidade revela à Fórum seu mais recente projeto: realizar no Brasil o seminário internacional Crise e Oportunidade. Num diálogo entre intelectuais e sociedade civil, ele vê espaço para uma agenda de mudanças sociais e ambientais capaz de superar dois “paradigmas falidos”: o capitalismo liberal e o “socialismo real”

Na sucessão de tremores que abala a economia capitalista desde 2007, os últimos três meses foram de relativa calmaria. As enxurradas de dinheiro despejadas pelos bancos centrais para salvar instituições financeiras finalmente começaram a destravar os mercados de crédito. No Brasil, por exemplo, as maiores empresas voltaram a captar recursos externos e as ondas de demissão refluíram. Embora duramente castigadas (recessões próximas ou superiores a 10% nos países bálticos), regiões críticas, como o Leste Europeu, não entraram em colapso – o que poupou os grandes bancos internacionais de perdas suficientemente graves para gerar novos espasmos de pânico. Nos Estados Unidos, epicentro do grande terremoto, há quem preveja que a produção voltará a crescer, embora muito vagarosamente, a partir de 2010.

Em seu período mais agudo, a crise produziu uma mudança extraordinária no cenário político e no ambiente ideológico do planeta. Mitos como a regulação das sociedades pelas “forças de mercado” desmoronaram tão rapidamente que o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, falou em “queda do muro de Wall Street”. Países como EUA, China e Brasil reagiram à crise com medidas que em outros tempos seriam levadas sem demora à fogueira das heresias: mais investimentos públicos, estatização de bancos e empresas, ampliação de certos direitos sociais. Seria, agora, o momento de fazer um balanço do que passou e descansar?Aconselhado por sua trajetória incomum, o professor Ignacy Sachs ousa dizer que não – e tem companhia. Pioneiro da ecossocioeconomia, consultor especial das duas conferências mundiais da ONU que projetaram a ideia de “desenvolvimento sustentável”, Sachs envolveu-se, desde o final do ano passado, num novo projeto – que tem, mais uma vez, o Brasil como centro. Entre 16 e 18 de novembro, o seminário internacional Crise & Oportunidade debaterá a construção de uma agenda social e ambiental, elaborando projetos reais, capazes de produzir mobilização social a partir de algumas ideias que ganharam força com a crise do neoliberalismo. Ignacy Sachs abordou este e outros temas, em entrevista concedida à Fórum e publicada a seguir.

Continue Reading 27 de agosto de 2009 at 15:34 Deixe um comentário


Comissão convocadora

Amir Khair, Antonio Martins, Caio Magri, Caio Silveira, Carlos Lopes, Carlos Tibúrcio, Darlene Testa, Eduardo Suplicy, Ignacy Sachs, Juarez de Paula, Ladislau Dowbor, Luiz Gonzaga Beluzzo, Moacir Gadotti, Márcio Pochmann, Paul Singer, Roberto Smith.

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O objetivo geral de Crise e Oportunidade é de identificar na crise global as oportunidades de se colocar em discussão temas mais amplos, buscando a organização da intermediação financeira e dos fluxos de financiamento para que respondam de maneira equilibrada às necessidades econômicas, mas que sobretudo permitam enfrentar os grandes desafios da desigualdade e da sustentabilidade ambiental, nos planos nacional, regional e global.

 
 
 
 
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