Negócios Verdes (Juarez de Paula) 

17 de setembro de 2009 at 15:02 Deixe um comentário

Por Juarez de Paula*, setembro de 2009

Os indicadores econômicos internacionais começam a dar sinais de que estamos superando o quadro de recessão mundial. A mídia internacional já anuncia o fim da crise. O Brasil, conforme previsão de que seria um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair, depois de dois trimestres com redução da atividade econômica, retomou o crescimento industrial, segundo dados do último trimestre.

O problema é que pouco adianta retomar o crescimento econômico se não há mudança estrutural no padrão de produção e consumo, pois como se trata de um modelo não sustentável, é mera questão de tempo até que nos vejamos imersos em nova crise, provavelmente de maior profundidade e extensão.

É preciso iniciar a transição para uma sociedade pós-carbono, ou seja, para um novo padrão de produção e consumo menos intensivo no uso de energia e menos dependente dos combustíveis fósseis, cujas reservas são finitas e estão em processo de esgotamento.

Quando se fala numa “Agenda Verde de Desenvolvimento”, muita gente reage como se fosse uma utopia irrealizável. Utopia não deixa de ser, vez que significa “não-lugar”, ou seja, aquilo que não está posto. Mas Utopia não significa aquilo que nunca vai existir, como querem alguns. Pelo contrário, tem significado sempre, ao longo da história, aquele tipo de sonho que move os revolucionários e inovadores, gerando processos de mudança.

Pensar em um novo padrão de produção e consumo que contribua para a realização de uma Agenda Verde do Desenvolvimento, ou seja, para a afirmação de um modelo de desenvolvimento sustentável, significa pensar em novos negócios, capazes de gerar crescimento econômico, mais empregos e mais renda, ao tempo em que se avança na conquista da sustentabilidade.

Imagine, por exemplo, todo o mercado em torno do aproveitamento de fontes renováveis e sustentáveis de energia, tais como a energia solar, a energia eólica, a energia cinética das marés, a produção de biocombustíveis (etanol, biodiesel, etanol celulósico). Quantos empregos serão gerados em pesquisas tecnológicas, desenvolvimento de máquinas e equipamentos, instalação e gerenciamento de novos sistemas de produção e distribuição de energia?

Ainda nesta área, é fundamental aumentar a eficiência energética das máquinas e equipamentos existentes, o que também demandará inúmeros novos negócios, seja no desenvolvimento de novas tecnologias, seja na adaptação de inovações para uso nas máquinas e equipamentos disponíveis.

Outro mercado importante é aquele que gravita em torno das atividades de captação, eficiência no uso e reciclagem de recursos hídricos. Assim como os combustíveis fósseis, a água também é um recurso natural escasso que exige aproveitamento racional.

Produção e adaptação de habitações ecoeficientes é outro negócio promissor. A arquitetura, o design e a indústria da construção civil, incluindo a indústria dos materiais de construção, precisarão criar soluções de iluminação, climatização, reciclagem de emissões, destinação de resíduos, dentre outras, compatíveis com o conceito de desenvolvimento sustentável.

O urbanismo e o design das cidades também serão afetados, de modo que se eleve a qualidade de vida e se reduza o consumo de energia e a emissão de poluentes. Nesse sentido, a redução das necessidades de deslocamentos e novas soluções em transporte coletivo são desafios capazes de gerar novos modelos de negócio.

Desenvolvimento de embalagens biodegradáveis a partir de matérias-primas renováveis, tais como os bio-plásticos derivados de polímeros de mandioca ou cana-de-açúcar, é outro grande mercado, que se somará àquele das atividades de coleta seletiva, reciclagem e destinação de resíduos, buscando uma radical redução da produção de lixo.

Produção agroecológica de alimentos, reduzindo a utilização de fertilizantes e pesticidas químicos, é outro mercado em expansão. Para além da melhoria na qualidade dos alimentos, vai estar também em foco a necessidade de redução da “pegada ecológica”, ou seja, dos custos de energia e emissão de carbono decorrentes do transporte dos alimentos, de modo que será cada vez mais valorizada a produção e comercialização local.

Captação e fixação de carbono é outro segmento de negócios a ser considerado, provavelmente como um serviço associado à atividade agroflorestal. Remuneração de serviços ambientais tais como a preservação de nascentes, de matas ciliares, de áreas verdes, passará a ser uma alternativa rentável nas áreas rurais.

Mesmo soluções muito simples, para reduzir o consumo doméstico de energia, serão capazes de criar novos negócios. Por exemplo, chuveiros elétricos e ferros de passar roupa são os principais responsáveis pelo consumo de energia elétrica domiciliar. Assim, equipamentos de baixo custo para aquecimento solar da água e artigos de vestuário com tecidos que não amassem serão negócios promissores.

Numa sociedade do conhecimento, os serviços de educação e as tecnologias de informação terão demandas crescentes. A população mundial já está em torno de sete bilhões de pessoas. Imaginar um crescimento populacional ilimitado também não é sustentável. Portanto, a necessária estabilidade demográfica exigirá a melhoria dos serviços de planejamento familiar e, conseqüentemente, o envelhecimento relativo da população implicará em novas demandas nos serviços de saúde e previdência.

São alguns poucos exemplos de como é possível gerar negócios, empregos e renda, fazendo a transição para um novo padrão de produção e consumo que contribua para a construção de um modelo sustentável de desenvolvimento.

O futuro imediato da humanidade exige um modo de vida diferente, onde todos tenham acesso a uma vida mais frugal, mais saudável, mais local, mais próxima da natureza. Isso não significa regredir às condições do período medieval. Significa apenas reconhecer que as condições da sociedade industrial não são sustentáveis.

Não se trata, todavia, de um destino inexorável. Trata-se de uma escolha: racional, intencional, consciente. Podemos escolher uma vida confortável para todos, construindo um modelo de desenvolvimento sustentável e includente, ou podemos escolher o caminho do colapso ambiental, com seu conseqüente e previsível cenário de barbárie e de caos.

 

*Juarez de Paula é sociólogo e gerente da Unidade de Desenvolvimento Territorial do SEBRAE.

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